aqui ou algum lugar

Reflexões de Cotidiano, crônicas sobre os aspectos mais corriqueiros das nossas vidas, do sentido da vida à mobilidade urbana, e tudo mais o que puder fazer aqui ou qualquer lugar melhor. Vamos pensar juntos?!

Turismo de Cotidiano. Um estilo de viajar, a partir de experiências e atenção sobre o dia-a-dia. Conhecer algum lugar além dos principais atrativos turísticos. Por seu sabores, cheiros, costumes e histórias que fazem qualquer local muito especial. Vamos viajar juntos?

Sabático, palavra de origem hebraica que significa repouso, é um período que algumas pessoas decidem tirar para repensar suas carreiras e vidas. Sair da rotina para tomar novos rumos. Conheça como foi a experiência!

O sonho do carro novo e o transporte público. Desenvolvimento?

07/03/2013

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Vale questionar essa série de verdades absolutas e costumes enraizados a respeito da real adequação ao cenário social e econômico.

transito em são paulo

“Consegui comprar meu carrinho”, talvez seja um dos principais sonhos do brasileiro. Muitas vezes a frase é dita em tom de conquista, afinal, somos bombardeados desde criança pela escolha do carro como principal meio de transporte nas cidades brasileiras. É cultural! Somos criados para querer um carro. Mas será que esse sonho é tão importante assim? E mais, tão benéfico assim para você e para a sociedade?

Depois de uma temporada na Europa, voltei decidida para São Paulo: não terei carro! Sou uma “car free”, apesar da reação incrédula da maioria das pessoas e seus olhares que denunciam a dúvida e pré-julgamento de que eu estaria mais para uma “money free” segundo a lógica preponderante por aqui. Acredito que, para a maioria das pessoas, seja inimaginável esta escolha não ser realizada por necessidade, mas sim por uma nova opção e filosofia de vida. Esta reação é absolutamente compreensível! Somos criados para querer um carro! Além do conforto, a política pública de infraestrutura de transporte neste país é baseada no automóvel próprio, mesmo que, em termos coletivos, os benefícios do transporte público de qualidade seja infinitamente maior do que o carro individual e pessoal. Basta observar a quase infinita fila de carros com uma pessoa só no trânsito em São Paulo na hora do rush.

O país só perde com isso, e cada cidadão também. De uma história de sucateamento das ferrovias brasileiras, passamos de governo em governo fazendo pouco, muito pouco, para a melhoria dos sistemas de transporte públicos municipais, estaduais e federais. No último feriado da Independência em setembro ainda estava viajando pela Europa. Sério, eu mudei de país, da Inglaterra para a França em apenas duas horas em viagem de trem, enquanto lia as mensagens de amigos e conhecidos sobre o habitual e angustiante trânsito nas estradas paulistas de mais de cinco horas para um percurso de menos de uma hora.

“Ah! Mas não dá para comparar a realidade europeia desenvolvida com o Brasil”. Por que não? O metrô de Londres tem 100 anos e o de São Paulo quase 40 anos. No entanto, independente do tempo de operação, estamos numa era em que a tecnologia está disponível. E o dinheiro também deveria estar, afinal, contribuímos imensamente com impostos que deveriam servir para alguma coisa. Dá para medir a riqueza de um país se os ricos usam o transporte público. Sinal de que não há tanta desigualdade e muitas alternativas viáveis de locomoção.  Em praticamente toda Europa é possível se locomover apenas com trem e transporte público.

Falando em impostos, ao invés de investir em infraestrutura básica e sistema de transporte de qualidade, a medida frequente do governo brasileiro é a redução do IPI para que o cidadão compre seu carro, sem avaliar o cenário macro, e ficar mais tempo parado no trânsito. Mais um estímulo ao sonho do meu carrinho, porém pouco incentivo ao pensamento crítico e questionador.

Alguém já parou para pensar o quanto o país perde de dinheiro e produtividade com as pessoas paradas uma, duas, três horas no trânsito? A alternativa automática é aproveitar o IPI reduzido, afinal sinaliza o aumento do poder aquisitivo no brasileiro. Será? Aumenta também a necessidade em gastar mais para sustentar o carro e todos os custos relacionados a ele (IPVA, Seguro, gasolina, estacionamento, manutenção), além da estúpida depreciação, agravada com a redução do IPI. Qual a vantagem de comprar um carro usado se o zero custa “tão pouco”? Vendi meu carro no ano passado justo nessa época e a desvalorização tira a vontade de sorrir.

Sem contar que a redução de imposto pode ser considerada razoavelmente ilusória. Apesar de não ganhar com o IPI, o governo, independente de qual esfera, passa a arrecadar mais com IPVA, Seguro Obrigatório, impostos sobre as operações de venda. “Hum, mas a medida é para fazer a economia girar”… Em minha opinião, o argumento cai por água abaixo quando pensamos na produção agrícola ou industrial no interior do país que sofre com um valor de frete exorbitante por conta da falta de infraestrutura adequada. Ou até mesmo a produtividade e, porque não, a capacidade de consumo de milhões de pessoas que estão lá paradas no trânsito, porém na falsa sensação de conforto e conquista do seu carro em relação ao transporte público.

“Quanto à arrecadação, de junho a agosto, o governo deixou de arrecadar cerca de R$ 20,7 milhões com a redução do IPI. Entretanto, no mesmo período, a arrecadação com PIS COFINS, Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) aumentou R$ 22,4 milhões. Bellini disse ainda que a geração diária de impostos aumentou em R$ 1,7 milhão, apesar da redução do IPI”. Matéria no Globo.com

Não foi apenas em 2012 que o IPI foi reduzido para a compra de automóveis, sem mencionar eletrodomésticos também. Desde 2009 o governo vem adotando essa medida a partir do discurso de incentivo da economia. Segundo dados publicados pela Associação Brasileira de Locadora de Carros (ABLA) e matéria no UOL, no total, o país deixou de arrecadar 76 bilhões de reais. Ignorando o aumento da arrecadação dos outros impostos, com uma conta rápida nota-se que esse valor seria suficiente para construir equivalente a 20 linhas amarelas do Metrô de São Paulo, segundo dados publicados no site do próprio governo do estado, ou seja, em conta no papel de pão, mais de 250 km do sistema metroviário de qualidade.

“O custo da Linha 4-Amarela do Metrô, na primeira fase, é de R$ 3,8 bilhões (incluindo a parcela de US$ 450 milhões da ViaQuatro, referente à compra de 14 trens mais sistemas operacionais)”. Site do Governo de SP.

Só que não vejo esse tipo de questionamento sendo amplamente repetido. Me parece que, ao comprar o carro, fechamos a sensibilidade para olhar o quadro mais amplo sobre a insustentabilidade deste meio de transporte. Como diz minha amiga Deusa, dessa forma, a classe média vai deixando de usar os serviços básicos, como o de transporte e, assim, a sociedade vai perdendo a cobrança da principal massa crítica “cliente” desses serviços. O mesmo acontece com a saúde, porque passamos a usar o plano particular ou empresarial de assistência médica. Também com educação, ao colocar seus filhos nas escolas particulares, e assim por diante. Está errado? Difícil julgar, porque sempre se quer o melhor para si e para a família. Mas quando vamos mesmo cobrar a melhoria desses serviços?!

Enquanto você estiver no trânsito, avalie esta situação sob o ponto de vista financeiro, social, público e ambiental, abre-se espaço para bons questionamentos.

O texto já ficou longo demais! Avaliar se dá mesmo para viver sem carro em Sampa, terá que ficar para o próximo post. Até lá, bom trânsito para você!

 

Referências:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/08/montadoras-pedem-mantega-prorrogacao-do-ipi-reduzido.html

http://www.abla.com.br/governo-perdeu-r-76-bi-com-queda-do-ipi-de-autos/

http://americaeconomiabrasil.uol.com.br/artigo/edicao-417/debates/lucro-dentro-fora-de-campo

http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=214771

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