aqui ou algum lugar

Reflexões de Cotidiano, crônicas sobre os aspectos mais corriqueiros das nossas vidas, do sentido da vida à mobilidade urbana, e tudo mais o que puder fazer aqui ou qualquer lugar melhor. Vamos pensar juntos?!

Turismo de Cotidiano. Um estilo de viajar, a partir de experiências e atenção sobre o dia-a-dia. Conhecer algum lugar além dos principais atrativos turísticos. Por seu sabores, cheiros, costumes e histórias que fazem qualquer local muito especial. Vamos viajar juntos?

Sabático, palavra de origem hebraica que significa repouso, é um período que algumas pessoas decidem tirar para repensar suas carreiras e vidas. Sair da rotina para tomar novos rumos. Conheça como foi a experiência!

Educação e gentileza, falta e excesso na relação social no Brasil

30/10/2012

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Bonito (MS).
Banco de Imagens da Região

Educação: 1. processo que visa o desenvolvimento harmônico do ser humano nos seus aspetos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade. 2. processo de aquisição de conhecimentos e aptidões. 3. Instrução. 4. adoção de comportamentos e atitudes correspondentes aos usos socialmente tidos como corretos e adequados; cortesia; polidez.

Gentileza: 1. Qualidade do que ou de quem é gentil. 2. gesto ou comportamento que revela amabilidade; delicadeza. 3.simpatia. 4.elegância. 5.favor.

Dicionário Mobile da Língua Portuguesa. Porto Editora, 2011.

Ao longo da viagem para fora do Brasil encontrei muitos brasileiros vivendo no exterior. Muitas vezes, nas conversas sobre as vantagens e desvantagens de morar em outros países e as comparações com o Brasil, a saudade da hospitalidade, carinho e calor do povo brasileiro sempre são mencionadas com lágrimas nos olhos e o tradicional “Ah, você sabe do que estou falando”.

Sabemos! Definitivamente, esbanjamos sorrisos e acolhimento. Aquelas conversas calorosas que conseguimos ter no ônibus, no caixa do supermercado, na fila do banco, na loja, em qualquer lugar. Sempre que algum estrangeiro me comentava sobre visitar o Brasil, eu incentivava. “Vai! A gente adora receber pessoas, o povo brasileiro é muito hospitaleiro, sempre que tem um ‘gringo’, todo mundo quer agradar”. Eu acho mesmo isso, e no melhor sentido. A gente gosta mesmo de receber bem as pessoas. No entanto, essa amabilidade não necessariamente significa respeito real ao coletivo. As pequenas “escapadelas” às regras de convivência, às vezes as mais banais, realmente é uma questão comportamental que prejudica a vida em muitos níveis.

A frase da Carla, brasileira vivendo há mais de cinco anos na França, talvez seja uma das que mais expressa essa diferença. “Eles (franceses ou europeus) são educados, mas não são gentis. Nós (brasileiros) somos gentis, mas nem sempre somos educados”. Mais uma frase que eu estava reticente em escrever, principalmente porque me incomoda aquela visão de quem tem algum contato, grande ou pequeno, com o perfil europeu ou norte-americano, e depois só consegue comparar depredando a imagem e auto-estima nacional. Temos muitas qualidades boas e únicas. Porém, depois de algumas interações no retorno ao Brasil a frase ganhou ainda mais força, pela boa dose de percepção dessas diferenças culturais que às vezes pensamos sutis, mas que de fato transformam radicalmente a forma de conviver.

Bonito e Pantanal (Banco de Imagens da região)

Educação versus gentileza – Eles são educados, mas não são gentis. Respeito ao horário, até com exemplos engraçadíssimos como o host francês que havia marcado o jantar para 19h e às 19h02 estava batendo na porta do quarto para avisar que os aperitivos já estavam servidos. “We are ready when you are ready”. E às 19h30 interrompeu a conversa porque era o horário previsto para o jantar. Até engraçado e pode ser confundido como indelicadeza, mas é esta visão de seguir o que está estabelecido. Comportamento na relação entre pessoas, mas também nos serviços públicos, como os meios de transporte que, comumente, dispensam cobrador ou catraca, pois cada um deve ter o seu bilhete. Simples assim! E se cada um fizer a sua parte como esperado, a relação fica mais fácil, e todos tem o seu espaço.

Nós somos gentis, mas não somos educados. A recente viagem pelo Brasil me fez lembrar isso, como as pequenas atitudes já no aeroporto e no avião. Qual a parte difícil de entender do “Por medida de segurança, permaneçam sentados até que o aviso de ‘atar cintos’ seja desligado.”? Ou “observem as regras locais quanto ao uso do telefone celular, os mesmos deverão permanecer desligados até a parada total e a abertura da porta principal da aeronave”? Será mesmo que aquela ligação para dizer que chegou não poderia esperar até chegar ao saguão do aeroporto? Esses cinco minutos fariam realmente alguma diferença? Não vejo nenhuma maca e paramédicos para entender qual a emergência, ou, como se diria popularmente, essa sangria desatada. “Ah! Mas é só uma ligação”. “Ah! Mas é só um pouquinho que faltava para parar”. Só que não parou ainda, o sinal do cinto de segurança também está ligado.

E por acaso o avião vão sair do aeroporto com você ou suas coisas lá dentro? Me dá um bom motivo para aquela correria insensata para abrir os maleiros e tirar as bolsas e mochilas. Para ficar em pé no corredor esperando a saída ser autorizada. Gentileza na conversa durante o vôo, na aceitação da troca do assento para deixar o casal unido, mas falta de educação para respeitar regras simples.

Desde que ouvi a frase da Carla tenho pensado no assunto, mas a vontade de escrever esse post cresceu ao presenciar, além do avião, outras atitudes que decidi compartilhar para pensarmos: esses pequenos desrespeitos às regras valem a pena? Esse maldito “ah, mas é só…” Atitudes que minam o pensamento no todo e no outro! Até porque não entendo qual a real vantagem coletiva, porque se cada um fizesse sua parte, como esperado, o outro saberia como reagir e ninguém precisaria “correr para garantir o seu”. Não é uma crença tola de pequena vantagem superficial? Como, por exemplo, eu serei o primeiro a sair do avião, para ganhar… hum…. 5 minutos? Isso se você não tiver bagagem despachada, porque daí vai esperar do mesmo jeito em frente à esteira. Como todo mundo…

Educação pelo exemplo? Qual exemplo? – Em Campo Grande fomos visitar o Cras – Centro de Reabilitação de Animais Silvestres, localizado dentro do Parque dos Poderes. Um lugar lindo, com um trabalho muito bacana com animais apreendidos em tráfico ou cativeiros irregulares, como araras, tucanos, macacos, e até onças. Vale o passeio! Apesar das condições relativamente precárias, o trabalho é muito bonito e relevante. Nós agendamos a visita para uma terça-feira e compunham nosso grupo mais duas mulheres e quatro crianças, entre 5 e 11 anos.

A visita começa por uma trilha pela reserva e depois segue para o próprio centro de reabilitação. Logo no início do passeio, a guia pede para que todos andem juntos e tentem fazer silêncio para que seja possível ver alguns animais da reserva. Bom, quando estamos na parada para conhecer a nascente do Córrego Prosa, não é que o celular de uma das mulheres toca? O pior não é isso, mas sim ela atender e continuar conversando sobre, se não me engano, algo como os afazeres da casa naquela tarde. Desculpe-me, mas é muita falta de noção. É por isso que eu não acredito em bom senso nem em coelhinho da páscoa.

Na parte onde os animais estão em tratamento, a guia pede para que todos fiquem juntos, para que ela possa dar as explicações, que seja mantida a distância sinalizada das jaulas e outras orientações pontuais, como não conversar com os papagaios porque prejudica o processo de reabilitação e possível retorno à natureza. Nem preciso dizer que em pouco tempo já era criança para tudo quanto é lado. Porém, o gran finale ainda estava por vir.

Ao chegar à jaula com uma onça, a outra mulher da dupla praticamente ultrapassa a “cerca” que sinalizava a distância para fotografar o animal. “Ah! Mas é só uma foto rápida; a definição desta câmera é ruim, a foto precisa ser mais de perto”. Oi?! A melhor resposta veio do seu filho. “Mãe, depois sou eu que não respeito as regras, né?!”. Tomou? Ah! Mas é só mais um mau exemplo… será que devemos mesmo usar esse “só”?!

 

“Ah! Mas é só uma banana”… – A síndrome do “Ah! Mas é só…”, mais uma vez apareceu em Bonito, durante o passeio de dia todo na Fazenda Rio do Peixe. O dia envolve trilhas, mergulhos em cachoeiras, tirolesa, um almoço sensacional e um pouco de interação com animais da região, mais especificamente um grupo de macacos prego e uma arara.

Nesta parte, o Sr. Moacir, dono da fazenda, já acostumou os macacos com o horário para um lanchinho a base de bananas. “Mantenham o círculo e abaixem as mãos com as bananas que, ao seu tempo, os macacos vem buscar na sua mão”, instruía o Sr. Moacir. “Em hipótese alguma ofereçam a banana na árvore, porque senão eles não virão mais pegar no chão”, ressaltava. Em menos de dois minutos já havia pessoas fora do círculo e oferecendo os pedaços da fruta aos macacos que estavam nas árvores. Gente, qual a parte difícil?

Bem próximo de nós, um homem já no final da meia idade foi um dos primeiros a atiçar os macacos nas árvores. Ele posicionava seu braço para o alto, perto dos galhos, e repetia “Vem macaquinho, vem buscar a banana”. O macaco tentava, mas não consegui alcançar. E minha indignação aumentando no mesmo ritmo e a brincadeira de dar banana ao macaco fadada ao fracasso. E eu me pergunto, se o cara que é dono da fazenda e faz isso todo dia passa determinada instrução, por que alguém decide estragar a brincadeira de todo mundo? Claro, pensamento egoísta, para garantir que o macaco venha na sua mão, tanto faz como será para as outras pessoas que estão ali passeando como você.

Ah! Mas é só uma banana!

Ah! Mas é só um minutinho!

Ah! Mas é só uma alteraçãozinha!

Ah! Mas é só um favorzinho!

Ah! Mas é só uma facilitação para que eu possa conseguir o que eu quero!

Ah! Mas é só uma pequena atitude diária que, no final das contas, destrói as melhores coisas e mina os melhores potenciais.

Ah! Mas pena que talvez esse seja só mais um texto.

Fazenda Rio do Peixe, Bonito (MS) – Foto de Banco de Imagens (mostrando que funcionaria, né?)

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