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Reflexões de Cotidiano, crônicas sobre os aspectos mais corriqueiros das nossas vidas, do sentido da vida à mobilidade urbana, e tudo mais o que puder fazer aqui ou qualquer lugar melhor. Vamos pensar juntos?!

Turismo de Cotidiano. Um estilo de viajar, a partir de experiências e atenção sobre o dia-a-dia. Conhecer algum lugar além dos principais atrativos turísticos. Por seu sabores, cheiros, costumes e histórias que fazem qualquer local muito especial. Vamos viajar juntos?

Sabático, palavra de origem hebraica que significa repouso, é um período que algumas pessoas decidem tirar para repensar suas carreiras e vidas. Sair da rotina para tomar novos rumos. Conheça como foi a experiência!

Precisa-se (sempre) de um amigo

22/07/2016

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Lolita Hebe e Nair

Ontem quando entrei nas redes sociais descobri que recentemente foi o Dia do Amigo. Curioso, há alguns dias tenho pensado muito num poema sobre o assunto que marcou minha infância. Uma vontade imensa de compartilhar os versos e escrever sobre esse presente raro, a amizade.

Esse poema estava num quadro pendurado na parede do cômodo que meu pai usava como escritório em casa. Era um quarto pequeno no andar de cima do sobrado, ao lado da área de serviço onde minha mãe esticava as roupas para secar. Os móveis eram todos de madeira – uma estante cheia de livros, incluindo a enciclopédia usada intensamente como fonte de tantos trabalhos escolares, uma mesa e uma cadeira de madeira rústica. O quadro sempre me chamou atenção, ficava entre a porta e outro retrato emoldurado dos meus avós paternos ainda jovens. Não cheguei a conhecer meu avô, ele faleceu antes de eu nascer, mas sentia uma grande simpatia por aquele rapaz de bigode e olhos gentis da foto.

O quadro sobre a amizade não tinha moldura. Era uma espécie de tábua de madeira com uma impressão em preto e branco num papel luminoso. Foi o presente de um amigo. Tinha a imagem da silhueta de duas pessoas na praia do lado esquerdo e um texto do lado direito. Era o poema “Precisa-se de um Amigo”, que até hoje não sei a autoria – na internet aparecem, no mínimo, umas três possibilidades de poeta. Não tenho ideia qual exatamente era a minha idade na época, mas tenho a vívida lembrança de olhar para aquele quadro com a curiosidade imensa de saber o que significava aquele texto… eu ainda não sabia ler.

Conforme crescia, fui desvendando seus versos, mesmo sem ainda compreender muito bem o que diziam. O desafio de formar as palavras já era grande demais enquanto me alfabetizava. Fui aos poucos entendendo seu significado. Me lembro nitidamente de uma conversa com uma das minhas irmãs mais velhas tentando descobrir porque eles tinham que pescar na história, e assim aprendi a função dos exemplos em uma redação.

Fui me apropriando do texto ao ponto de decorá-lo. Era quase um ritual, sempre que entrava no escritório eu lia novamente o quadro. A cada consulta à enciclopédia – e isso foi muito frequente na década de 1980, bem antes do Google saber tudo – eu corria os olhos pelos versos antes de sair pela porta.

É impressionante, se fechar os olhos, eu consigo recitar o poema, apesar da minha memória deletiva – não errei, não é memória seletiva, é deletiva mesmo! Sem brincadeira, ela vai deletando aquilo que eu não uso… Dizem que o sentimento é a “cola” da memória, não posso discordar.

Porém, muito mais do que reproduzir as frases, foi um poema que marcou a minha compreensão do que é amizade.

Amizade é, antes de qualquer coisa, prazerosa! É fonte de alegria e de amor. É chorar de tanto rir por alguma besteira que só vocês entendem. É tirar sarro quando o outro dá um fora. É ajudar o outro levantar da queda, mas também fazer piada do tombo.

Amizade é também fonte de compreensão. É estar lá nas horas difíceis, mesmo que seja só para ouvir o outro chorar, dar o ombro e um abraço. É aceitar ser reconfortado, mesmo que o amigo não possa fazer nada para resolver a questão. É realmente estar junto!

Amizade também pode ter desentendimentos e até brigas. Amizade precisa de verdadeiro diálogo e empatia, não da boca para fora, e a coragem de tratar os assuntos difíceis com honestidade e abertura. Eu acho que é sempre muito mais difícil ter essas conversas quando há muito carinho envolvido. É aquela história de que a solidariedade e a empatia começam com quem está perto, com o desconhecido a dinâmica é outra. Já perdi amizades, e isso dói muito. Às vezes eu errei, consigo admitir. Me parece muito ingênuo atribuir ao outro toda a culpa. Em qualquer relacionamento é 50%-50% de responsabilidade. Algumas vezes conseguimos reverter, e só fortalece a amizade pela superação dos mal-entendidos. Quando a gente desiste de uma amizade ou é porque já tentou muito, ou porque nunca foi de fato. Amizade precisa de cuidado, integridade e nutrição.

Outras amizades duram uma vida, são as verdadeiras. Não importa a distância ou quanto tempo os amigos fiquem sem se ver, é sempre igual e muito bom! Inevitavelmente a conversa começa com o “deixa eu te atualizar sobre o que aconteceu nas últimas semanas, meses ou até anos que a gente não se vê”. E nunca vai ser estranho ligar no meio do nada só para matar as saudades, o outro pedir desculpas porque não pode falar e demorar um tempão para retornar. Amizade não precisa de cobrança.

Hoje não convivo com todos meus amigos, a correria do dia a dia muitas vezes nos afasta do que é mais importante. Mas sei que posso contar com eles e elas, e que eles e elas também podem contar comigo. Amizade é também tentar arrumar aqueles suados quinze minutos para um café após a reunião, mandar um whatsapp só para saber como o outro está, esticar a viagem de trabalho para jantar e matar as saudades. É muito mais do que curtir no Facebook, ah isso eu tenho certeza.

Amigo é a família que a gente escolhe, adoro essa frase! Ainda mais por ter três irmãs que são minhas melhores amigas, e amigas que são como minhas irmãs!

Há muitos anos meu pai se desfez do quadro. A força do tempo corroeu a madeira e desbotou a impressão. Mas seu significado continua nítido na minha memória. Para mim, é mais um exemplo de como a literatura e um texto podem mudar uma pessoa. Com certeza, fez parte da minha formação e da minha visão sobre a amizade. Obrigada, seja lá quem for o autor.

 

Precisa-se de um amigo

Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
E, ainda que não compreenda, respeite os meus sentimentos.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado.
Alguém amigo o suficiente para me dizer as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso.
Nesse mundo de céticos, preciso de alguém que creia nessa coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível: A amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, e que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida. Mesmo que isto seja muito pouco para suas necessidades.
Preciso de um amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
“Nós ainda vamos rir muito disso tudo” e ria muito.
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher meu amigo. E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma amizade verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela.

Autor desconhecido

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