aqui ou algum lugar

Reflexões de Cotidiano, crônicas sobre os aspectos mais corriqueiros das nossas vidas, do sentido da vida à mobilidade urbana, e tudo mais o que puder fazer aqui ou qualquer lugar melhor. Vamos pensar juntos?!

Turismo de Cotidiano. Um estilo de viajar, a partir de experiências e atenção sobre o dia-a-dia. Conhecer algum lugar além dos principais atrativos turísticos. Por seu sabores, cheiros, costumes e histórias que fazem qualquer local muito especial. Vamos viajar juntos?

Sabático, palavra de origem hebraica que significa repouso, é um período que algumas pessoas decidem tirar para repensar suas carreiras e vidas. Sair da rotina para tomar novos rumos. Conheça como foi a experiência!

Entre o prazer e a culpa – e um pedido de desculpa

02/07/2016

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Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil (Fotos Públicas)

Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil (Fotos Públicas)

Uma pausa na correria diária, um intervalo dos afazeres profissionais, alguns dias de alimento para a alma. Interessante como, quase sem querer, uma viagem e um evento podem se tornar uma das tradições pessoais mais valiosas. Mais um ano de Flip. Faço as contas, já é a minha oitava edição. Caramba! Tantas reflexões, tantas ideias novas para o blog. A cada mesa, uma nova inspiração. Frases vão se rascunhando em minha cabeça. Inspirada pelo talento dos autores, fortaleço minha a vontade de escrever um novo post, ainda que me falte o brilhantismo dos escritores que admiro.

Decido pegar o computador e parar em um café da cidade para escrever. Vou caminhando entre as pessoas conversando animadamente nas ruas lotadas, os poetas recitando seus poemas, os músicos de rua dando a trilha sonora. Sigo em direção ao café enquanto tento definir o tópico do texto. Busco a decisão nas pessoas que cruzam meu caminho, mesmo sem elas saberem que estou perguntando, em silêncio, sobre o que escrever. Afinal, “nos conhecemos pelo encontro com o outro”. Rapidamente relembro o convite, realizado pelo o arquiteto italiano Francesco Careri e a arquiteta pernambucana Lúcia Leitão, para explorar a caminhada, redescobrir as cidades e permitir-se encontrar o outro. Proposta a qual me dedico com uma argumentação quase militante sobre a deliciosa, talvez ousada, opção por viver uma vida sem carro – quero escrever sobre isso.

Chego no café que tinha planejado ir, mas as mesas estão lotadas. Terei que buscar outro lugar. Penso em desistir, a cidade está lotada, será difícil encontrar um lugar que tenha internet e mesa disponível. Hum… um pouquinho de persistência não faria falta. Lembro o exemplo inspirador da cientista brasileira, Suzana Herculano-Houzel, e sua trajetória batalhadora de pesquisa no Brasil mostra como realmente faz diferença a determinação pessoal para a realização pessoal e profissional. Ou ainda a determinação que levou os quadrinhos, desprestigiados nos anos 1990, ao atual momento de ouro, graças a profissionais como os gêmeos Gabriel Bá e Fabio Moon, de quem sou fã de carteirinha, e Eloar Guazelli – na excelente programação Off Flip desse ano. Só com muita determinação mesmo. Imagina, realmente, quantas pessoas são desencorajadas de diferentes escolhas porque “não tem mercado”, “não tem incentivo” e “não dá dinheiro”. Carreira como escolha pessoal de talento ou por senso de oportunidade? Ou, quem sabe, ambos? Pode ser um tema…

Abro o computador com a convicção: vou escrever. São tantas ideias, mas começar de onde? Escrever, afinal, sobre o quê? Como escolher entre os tantos temas e as frases soltas em minha cabeça enquanto ouvia os autores ou durante as tantas conversas nas ruas paratianas nos últimos três dias. Além de todos os outros assuntos pendentes desde o último post no blog.

O último post do blog? Me dou conta de que faz exatamente um ano. Isso mesmo… Escrevi o último post em 03 de julho do ano passado, no mesmo clima literário da Flip e de inspiração. Sinto vergonha… “Como pode? Ou melhor, como pude?” – converso internamente comigo mesma com o tom de indignação pelo descaso e o autoboicote com uma das coisas mais valiosas para mim: escrever reflexões de cotidiano para o blog. Mesmo que a ausência possa ser justificada pela correria do dia-a-dia e dos projetos estimulantes e desafiadores que tive (e ainda tenho) a oportunidade e o privilégio de participar. Todos eles impulsionados por um entusiasmo enorme, não posso reclamar! Adoro minha atuação como consultora, especialmente por serem projetos que acredito e também me proporcionarem a flexibilidade e a autonomia tão valiosas para mim – e que me permitem trabalhar de qualquer lugar e tirar três dias numa semana para vir à Flip. Me entusiasmo com cada aula como professora e, recentemente, me descobri também pesquisadora, ainda mais por me possibilitar conhecer tantas coisas novas e temas relevantes para a sociedade e o mundo.

De repente, a culpa! Deveria estar fazendo minha dissertação… O prazo se exaurindo, ainda muito que fazer, mal terminei de analisar todas as organizações que fazem parte da minha “amostra”. Outros tantos projetos e respostas pendentes. A imensa lista de “to dos” à espera da segunda-feira já invade a minha cabeça, com o peso da crença de que a diversão só tem lugar depois de a labuta estar cumprida. Uma doce ilusão, já se sabe de antemão que ela nunca estará inteiramente realizada na rotina que impõe cada vez novos desafios. Mesmo sabendo do valor do ócio criativo, ainda mais numa proposta de ricas reflexões proporcionadas pela literatura, ainda assim, a culpa vem…

“Calma!” – digo a mim mesma. Relembro a conversa com Lucas logo no café da manhã. Ele agora, se dedicando ao livro do novo autor descoberto aqui na Flip. “Vamos aproveitar o final de semana e segunda-feira você retoma sua pesquisa”. A verdade conhecida tão difícil de estar realmente no momento presente e aproveitar o máximo de onde se está.

Tento rascunhar algumas ideias. Frases soltas vão aparecendo no word. Me dá um medinho, faz tanto tempo que não escrevo para o blog. Será que alguém vai ler? Continuo a escrever, vai com medinho mesmo. Afinal, ele também dá origem à criatividade, ao humor e ao riso, antídotos para a existência humana e a certeza de seu fim na conversa com Tati Bernardi e o português Ricardo Araújo Pereira – uma das melhores descobertas da Flip desse ano, concordo com a matéria do UOL – e Gregorio Duvivier.

Talvez eu precise começar com um pedido de desculpas aos poucos que me seguem, especialmente aos queridos amigos que nos últimos meses tanto me incentivaram para voltar. Porque demorei tanto tempo para escrever? Me pergunto: por que nos boicotamos em coisas tão simples? Por que estamos, frequentemente, postergando aquela vontade de aprender a cantar ou cozinhar? Ou a prática de um esporte, as aulas de dança, a viagem dos sonhos? Será que devemos esperar tanto? No cansaço do dia-a-dia, facilmente nos rendemos e vamos postergando coisas que poderiam nos preencher muito mais. Na verdade, preciso, antes de mais nada, pedir desculpas para mim mesma. Há de haver mais um equilíbrio entre as escolhas, ou pelo menos fazer as pazes com elas.

Está aí! Acho que vou escrever sobre isso. Olho cuidadosamente para a tela. Já escrevi. Me surpreendo! De forma pouco planejada, fui escrevendo os pensamentos que passaram em minha mente num ato egoísta de colocar meus pensamentos em ordem.

Levanto os olhos do computador. Recebo o sorriso simpático da senhora ao lado, que está quieta enquanto sua companhia (acho que neta) mexe no celular. Observo as mesas, dois cafés e um pão de queijo depois, vejo que já não são as mesmas desde que me sentei aqui. A Flip e a vida continuam acontecendo “lá fora” da tela do computador. Sem a pretensão de estabelecer um prazo para o próximo post, já estou mais tranquila e satisfeita por ter terminado um novo texto.

Imediatamente me lembro de uma conversa que tive ao ver um amigo em comum cantando radiante e realizando seu sonho. “Não podemos deixar de lado nossas paixões, apesar de todos os desafios práticos da vida”. Fico ainda mais feliz por estar aqui, mais um ano, na Flip. Os afazeres profissionais e acadêmicos podem esperar até segunda-feira. Estou agora num compromisso comigo mesma, com uma das minhas paixões e com as reflexões de cotidiano. Aqui e em qualquer lugar.

Um Comentário

  • Tania Baitello disse:

    A Madrinha da Flip aqui se sente honrada e emocionada não só pela sua iniciação (e conversão) à Flip, onde respiramos literatura e celebramos a amizade, como tbem em ver que estar aqui colocou vc novamente no blog. Viva a inspiração!

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