aqui ou algum lugar

Reflexões de Cotidiano, crônicas sobre os aspectos mais corriqueiros das nossas vidas, do sentido da vida à mobilidade urbana, e tudo mais o que puder fazer aqui ou qualquer lugar melhor. Vamos pensar juntos?!

Turismo de Cotidiano. Um estilo de viajar, a partir de experiências e atenção sobre o dia-a-dia. Conhecer algum lugar além dos principais atrativos turísticos. Por seu sabores, cheiros, costumes e histórias que fazem qualquer local muito especial. Vamos viajar juntos?

Sabático, palavra de origem hebraica que significa repouso, é um período que algumas pessoas decidem tirar para repensar suas carreiras e vidas. Sair da rotina para tomar novos rumos. Conheça como foi a experiência!

A benção de traduzir ideias, crenças e pensamentos.

02/08/2014

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Flip 2014_D

Um pouquinho sobre a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.

Por que gostamos tanto de determinada história? Por que essa ou aquela frase é promovida ao patamar de citação, até mesmo, atribuída a um autor diferente, vai se entender por qual motivo, mas repetida e distribuída constantemente como forma de expressão daquilo que a gente mesmo gostaria de dizer? Aquela música que aumentamos o som e cantamos com absoluta emoção, pois parece mesmo que foi “feita pra mim”?

Quando o mediador José Luiz Passos, gentil e simpaticamente, agradeceu a presença dos tradutores, tanto quem traduziu as obras dos autores quanto os tradutores simultâneos da Mesa Literária Fabulação e Mistério no segundo dia da Flip 2014, automaticamente pensei: E eu agradeço autores, compositores e artistas por me ajudarem a traduzir o que eu penso e o que eu sinto. Com a presença de jovens escritores, Eleanor Catton e Joël Dicker, foi mais um daqueles momentos do Festival que eu tanto adoro porque abre um espaço numa espécie de dimensão paralela de pura reflexão no meio do cotidiano agitado do ano.

Naquele mesmo dia, um pouco antes, havíamos conversado sobre o desafio hercúleo, tantas vezes inglório, do tradutor simultâneo, profissão que eu verdadeiramente admiro. Uma das coisas mais interessantes de falar outras línguas é perceber como podemos expressar a mesma ideia de maneiras completamente diferentes, ainda sim com o mesmo sentido. Quantas vezes você vai falar alguma coisa em inglês ou qualquer outra língua, e, ao se deparar com uma palavra ou construção que você não domina, você muda a frase e fala aquela mesma coisa de outra maneira? Eu, pelo menos, faço isso sempre! O tradutor simultâneo precisa perceber esse contexto a cada momento da fala do outro e, ainda assim, compartilhar o significado daquele personagem ali na frente. E muitas vezes uma frase pode caminhar para outra direção enquanto alguém está falando. É preciso um bocado de jogo de cintura e, ao mesmo tempo, rapidez, para traduzir aquilo que o outro fala. A mesa “Os possessos” com o primeiro russo a participar de uma Flip, Vladímir Sorókin, junto com a norte-americana Elif Batuman, estudiosa da literatura russa. Se não fosse a tradutora, talvez vodka fosse a única palavra que eu teria entendido do autor.

Nomear as coisas, ser capaz de expressar pensamentos, ideias, sentimentos e até mesmo devaneios. A comunicação e a expressão são, certamente, capacidades humanas valiosas e essenciais para o desenvolvimento da pessoa e da sociedade (sem julgar aqui para qual lado). As alegorias da ficção que muitas vezes retratam seu sentimento melhor mesmo do que você poderia dizer. A emoção contida que, quantas vezes, não são liberadas ao ver um filme ou ler um livro. A tradução em outro nível. Lembro uma vez, quando estava passando uma fase bem perrengada, e com uma amiga no carro eu cantava uma música com intensidade e pedia para ela acompanhar a letra com aquela expressão “entende?”. Acho que até hoje ela não entendeu. Porque a tradução em outro nível é também muito particular. É a sua interpretação e como aquilo toca a sua alma. Não dá para emprestar, não dá para replicar e não dá para forjar.

Mais um motivo para que um livro, nem sempre seja o mesmo livro para duas pessoas diferentes. Como as amigas ontem, Tania e Dani, discutindo sobre um livro que eu ainda não li, Precisamos Falar sobre Kevin, de Lionel Shriver. As duas inegavelmente adoraram o livro, mas por motivos e interpretações diferentes. Isso acontece com a mesma pessoa e o mesmo livro, mas ao ler a obra em momentos de vida diferentes. É até preciso certo cuidado ao reler uma obra, seu sentimento sobre aquele livro pode mudar radicalmente dependendo do seu contexto. E isso não tem nada a ver com a obra ou o autor, mas com você. Como a célebre frase de que um homem nunca cruza um mesmo rio duas vezes, certamente nunca lê o mesmo livro duas vezes também.

E ao pensar naquela obra que te conecta, não precisa ser necessariamente ligada ao seu cotidiano, ainda que eu concorde absolutamente com Michael Polin, outro autor convidado desta Flip, de que é no dia a dia que construímos nossas vidas e conduzimos as mais relevantes mudanças. Especialmente na cozinha. Mas essa tradução de sentimentos pode ser pela reflexão profunda daquilo que muitas vezes está tão distante, mas que te faz pensar sobre o que está perto ou simplesmente pela condição humana. Situações tocantes e emocionantes como a comovente mesa com o jornalista e psicólogo americano Andrew Solomon, que me arrancou umas tantas lágrimas e pensamentos profundos sobre situações que eu nunca tinha pensado.

Tradução também daquilo que você discorda. Como a mesa que saí há pouco, Tristes Trópicos, com os antropólogos Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro, que falaram coisas que eu simplesmente discordo na polêmica pauta indígena no Brasil, assunto que ainda conheço pouco, mas que tem despertado muito meu interesse. Aquele tipo de debate que, mesmo discordando de alguns pontos de vista, eu gosto muito de ouvir, porque traduz o que eu não acredito ou o que eu não sinto. E é sempre bom ter clareza disso. Como também quando alguém comenta no blog ou sobre o blog dizendo que discorda de algo. Fico feliz de ter traduzido isso também. Mas confesso que muito mais quando alguém compartilha dizendo que eu escrevi o que ela queria dizer.

Porque escrever é também uma forma de expressão própria, mas também uma ferramenta útil de tradução para que muitos se expressem. Imagino como deve ser ainda mais gratificante e lisonjeador para um escritor. Aos artistas que me ajudam a traduzir o que eu penso, o que eu acredito e o que eu sinto, meu muito obrigada!

 

Paraty Flip 2014 / Foto: Nelson Toledo

Paraty Flip 2014 / Foto: Nelson Toledo

 

 

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